
André Vianco
Não
sei se é o cansaço ou essa dor de cabeça
que me consome. O lance é que não lembro, de jeito
nenhum, do chão desta rua alguma vez ter sido assim.
Fofo. Estranho. Parece que eu piso e ele afunda um pouco. Já
olhei pra trás umas quinhentas vezes, achando que ia
encontrar pegadas, marcas fundas no asfalto que confirmariam
meus passos, meus feitos, minhas crenças, meus medos
e alegrias. Olho para trás e não vejo nada. Nada
foi marcado. Tenho medo. Respiro fundo e uma nuvem longa de
vapor escapa da minha boca. Longa mesmo. Elucubrações,
quiromancia, adivinhos e oráculos. É tudo água.
As nuvens desprendem-se de mim e sempre parecem formar alguma
coisa. Vão subindo pro céu. Subindo e sendo coisas.
Sendo coisas. Uma, para minha absoluta surpresa, toma a forma
fantástica de um caranguejo pegando uma moeda. Outra,
uma forma taurocéfala, acho que é um minotauro
vencido, isso, um minotauro caído num labirinto... e
se desfaz. Uma girafa procurando o poço das lágrimas.
O poço das lágrimas tem água que não
se deve beber. São essas formas que estão na minha
memória. Suspiro novamente. Nenhuma forma desta feita,
só a certeza de que não estava tudo confuso antes
de cruzar o túnel por baixo do Rio Pinheiros. Não
estava nada estranho. De estranho só tinha eu, ali, andando
àquela hora da madrugada. Com frio, com medo e desprotegido
de tudo. Agora nem sei que hora são. Só sei que
andei sobre cacos de vidro. Que depois o chão ficou fofo.
Não pensei em outra coisa. Atravessei o túnel
e cheguei à Juscelino Kubitschek, continuei em frente,
passando a Brigadeiro Faria Lima. Parei no cruzamento. Não
dava pra ver o topo dos prédios. Nuvens rápidas
cruzando o céu como se fosse um oceano revolto bem em
cima da minha cabeça. Valhalla. Um oceano revolto. Marolas
de nuvens. Marolas de chuva. Vikings barbudos e com fios de
fogo brandindo espadas e escudos. Tudo valeu. Meu eu pensa pra
mim. Eu segui. E a garoa chegou. Ela me molhou. Meu corpo esfriou.
Gelo morte. Sangue frio. E eu parado, ali, no chão fofo
que parece afundar quando eu passo. Tenho sede, mas meus olhos
só alcançam o poço das lágrimas.
Daquela água não quero. Enternece demais.
Não sei quanto tempo andei. Acho que por causa do frio
nem suei nem cansei. Rumei para aquela praça de que eu
gosto, ali, pertinho do Parque do Ibirapuera, onde tem o monumento
de que eu gosto, o lugar onde eu era. Passei outro túnel.
Andei mais um pedacinho. E lá estava ele. O Monumento
às Bandeiras. Antes de chegar, abaixo pra amarrar meus
sapatos. Susto. Estou descalço, em cima do gramado. Aqui
o chão é firme, encorpado. Me dá mais segurança.
Mas não é menos estranho. Meu estômago revira
assustado. Há uma bruma, de um palmo, talvez dois, passando
dos dois lados. Mas não é neblina densa. Não
é fumaça que rola no rés do chão.
É uma bruma translúcida, ora opaca, indecisa e
corrediça. De novo a idéia do oceano. Só
que agora no chão da praça. Mas essa bruma estranha
não é o que me apoquenta e nem mais os pés
descalços. São elas. Estão embaixo dela.
Atormentadas. Formigas. Formiguinhas pequenininhas, marchando
em linha. E elas falam. Elas dizem coisas impossíveis
de entender porque eu não falo formiguês. Mas para
o meu assombro elas viram umas para as outras e falam e riem
e contam coisas umas às outras, tenho certeza. Estão
conversando. Levanto-me horrorizado. E o horror não pára.
Ele se dilui, na verdade. Dilui-se porque reparo que minha alusão
ao oceano não está de todo torta. Torta. Aquela
bruma é fria e parece água. O leito plácido
de um largo e impossível rio. E olho direito pro Monumento
às Bandeiras. O barco que os índios e negros empurram
com tanta gana... o barco vai deslizando e eles o empurram pra
dentro d’água. Os cavalos de granito erguem as
fuças para o céu e tracionam com toda a força
para a frente. Seus músculos de pedra parecem capazes
de fazer girar o mundo. O barco, no entanto, se arrasta devagar.
A bruma é água clamando para ser singrada. O barco
rasga sem dó o leito espectral que se estende ao redor
da praça. E vai e vai e começa a navegar. Um gigante
de pedra grita: Jaraguá! E o gigante aponta para frente.
O barco afunda até o meio do casco, acho que toca o chão
da praça. Mas não é problema. Aqueles homens,
brutamontes que estão dentro, vão com ele, claro.
São bandeirantes. São desbravadores e perigosos.
Heróis e assassinos bárbaros. São homens
de corpo e peito de pedra. Querem ouro. Querem drenar riquezas.
O barco se afasta vagaroso, preguiçoso. Mas é
um espetáculo tão inusitado que me esqueço
de tudo por um instante. Só me dou conta de que estou
de fato ali e que não estou fora de meu corpo, vivenciando
viagem astral ou tendo um sonho lúcido, quando um índio
colossal caminha na minha direção, agitando a
bruma com os pés e fazendo sacolejar o chão de
tão pesados que são seus passos. Ele olha para
mim. Para o fundo dos meus olhos. Um frio sobe por minha coluna.
Ele se abaixa e toca um joelho gigante ao lado do meu corpo.
Passa a mão de pedra na minha cabeça e aponta
para o obelisco dos heróis de 32.
- Vai pra lá.
Agradeço ao gigante fazendo uma mesura. Volto a caminhar.
Lembro do cansaço, do frio em meus braços. Agora
o vento gelado é feito chibata que machuca. Olho para
o obelisco, que parece algo de assombrado. A bruma está
também ao seu redor, mas o que me chama a atenção
agora são os espíritos. São tantos e leves
que flutuam em correnteza ao redor do obelisco. Fantasmas. Saem
do chão e sobem girando e contornando o marco de pedra.
Pedra. Meus olhos pesados. Meu peito doendo. Caminho lentamente.
Com medo de chegar depressa. Olho para o Parque do Ibirapuera.
Está tão tarde (ou tão cedo). E tão
escuro que não vejo nada além das grades. A bruma
corrediça sobe pelos meus pés e faz ondinhas em
torno de mim. Chego ao asfalto. Atravesso a rua e estou de novo
no chão gramado, mantendo minha marcha, rumo ao encontro.
É a decisão. Sei que é. O frio que atormenta
não é natural. Sinto o peso do manto se desvanecendo
e roubando de mim o restinho de ingenuidade. Elas chegam agora.
Lágrimas marcando meu rosto e descendo para o queixo
sem que eu sequer chegasse perto da água do poço.
Eu olho para trás e não vejo o que todo mundo
diz. Todo mundo diz que nessa hora a gente vê tudo. Vê
nada! Só sinto o frio e ouço de novo as vozes
das formiguinhas. Olho para o obelisco em homenagem aos heróis
de 32. Vou chegando. Duas fileiras de soldados espectrais recepcionam
os que se aproximam. Eles não olham para a gente. Os
que chegam. Acho que os soldados já passaram ali faz
tempo. Nós, os novos, estamos tristes e lerdos. Nós.
Estou falando deles com tanta intimidade, mas só agora
vejo outros, espantados como eu, se achegando ao obelisco de
pedra. Vejo medo no semblante de cada viajante. Olho para o
barco. Jaraguá. Já vai sumindo. Olho para o caminho
à minha frente. Os espíritos rodopiando e subindo
como duas correntes em torno do obelisco. Agora que estou mais
perto, vejo. Há duas correntes também descendo.
Moto-contínuo. E dessa corrente alguns espíritos
escapam e chegam ao chão, ficando eretos e caminhando
como se fossem gente viva. Eles andam em direção
aos que chegam. Vêm com sorrisos nos rostos e graça
emanando das figuras. Estão felizes, destemidos. Ao meu
lado, uma mocinha que tem um galo enorme na cabeça, um
vestidinho rodado, vermelho, engole em seco de olhos pregados
na figura que vem. O espírito que chega junto dela é
ela em outra época. É ela mesma. O espírito
a abraça e suavemente a carrega. Meus pêlos se
arrepiam ao me dar conta do que acontece. Do meio dos fantasmas
que chegam lá vem eu. Euzinho da silva, em forma de espírito.
O eu fantasma toca a bruma. Só agora tomo tento. Os espíritos
que são cinzas ficam esverdeados quando se misturam com
a bruma. É como se a bruma fizesse parte deles naquele
instante. E eu espírito vem caminhando em minha direção.
Meu fantasma. Minha cópia em outro tempo. Chega perto
de mim. Meu fantasma me toca e me abraça. Recobre-me
como um manto de paz e compreensão. Não me diz
castigos, não me pergunta os feitos. É tudo existido
e consumado. Meu eu fantasma só toca meu peito e sente
meu coração. Tudo valeu. O medo se dissolve feito
fumaça e vai embora. Vai em direção ao
barco. Eu... eu me rendo ao meu fantasma, ao meu espírito.
Eu vou junto. Sou arrastado suavemente em direção
ao obelisco. E começo a flutuar. E me viro correndo e
subo junto. E é uma delícia. E é diferente
de tudo que pensei que fosse. Lá de cima, no fim do meu
aqui existir, lanço um olhar na direção
do barco. O bandeirante vira-se para mim e manda uma piscadela.
Ele vai buscar ouro e leva nosso medo para lá, dentro
do embornal. Vejo a cidade ficando pequeninha e girando e girando.
Jaraguá. Eu vou embora. É chegada a hora. Não,
não chora, nem me faz chorar. E, como diz a música
do Lobão, se lembrar de mim, faça com o mesmo
ardor de uma canção feliz, de uma canção
de amor.