André
Vianco - Publicado na revista Época - Janeiro/ 2007
Fazia
vinte minutos que eu estava imóvel no meu cubículo.
O ramal da diretoria piscando como um vaga-lume louco no display.
Simplesmente não conseguia atender. O resto do que seria
um álbum quando me recompusesse e juntasse toda aquela
bagunça estava espalhado no carpete do escritório.
O zunzunzum dos outros funcionários, outros telefones,
a copeira passando com o carrinho do café, o suor escorrendo
pelas minhas costas apesar do ar-condicionado ligado no talo,
tudo isso parecia a galáxias de distância da minha
mesa. Você já ficou vinte minutos imóvel,
sendo consumido por milhares de pensamentos ruins, culpa e danação?
Garanto que é um bocado de tempo, embora para mim, naquela
droga de dia em que recebi pelo serviço de entrega do
laboratório as fotos do aniversário da minha caçula,
vinte minutos pareceram um piscar de olhos.
A história é a seguinte; sou um senhor de quarenta
e sete anos, sentado na minha mesa de gerência de feedback
e retaguarda ao cliente platina, tenho dois filhos e uma esposa
que quero largar, segurando a fotografia da clássica
hora do parabéns. Nanda está com um chapeuzinho
de prender com elástico, feliz da vida, pronta para assoprar
o número sete de parafina cor-de-rosa sobre o Bob Esponja
Calça Quadrada. Eu, Deise, meu filho Marcelo, um cunhado,
sogra e meu pai bem ao fundo, meio escondido pela profusão
de convivas aparentados, esperando o espetacular primeiro pedaço
de bolo e posando para aquela foto que agora balança
na ponta dos meus dedos por conta da tremedeira que vai me consumindo.
A terceira amiga de escritório pára ao meu lado,
fala algo no idioma klingon, a única palavra em português
que escuto é “pálido”. Não
dou a mínima. Acho que vou ter um ataque cardíaco
mesmo.
A foto é coisa normal e corriqueira, tudo bem. Tudo bem.
O anormal é meu pai ali, entre minha sogra e meu cunhado,
com a penumbra por conta da luz apagada e da fraca luminosidade
da vela banhando um pouco da cena. Meu pai não foi ao
aniversário. Ele nunca vai. Meu pai vive num asilo para
idosos. Faz dois anos que eu não o visito. Por isso a
culpa me consome. Por isso meu coração está
disparado. Não é que eu simplesmente não
o visite. A agravante é que faz uns dezoito meses que
eu nem ligo para saber como ele está. Não liguei
no Natal nem no ano-novo nem em seu aniversário de setenta
anos. Deus Pai! Deus Pai! O que é isso? Será impressão
minha? Não pode ser ele, ali. Finalmente consigo me livrar
daquele torpor que havia congelado meus ossos e, de quebra,
minha alma. Ainda tremendo apanho a agenda ao lado do vaga-lume
ensandecido. Martirizo-me pela enésima vez. Nem o telefone
do asilo eu tenho de cor nem comigo! Digito no buscador “asilo
Santos-SP”. A Internet retorna mais de cem mil resultados.
Sei que minha testa está fria. Não lembro o nome
do santo que nomeia a droga do lar de velhinhos onde internei
meu pai. Que tipo de monstro não lembra o nome da casa
onde seu pai está? Levanto da mesa e, a passadas largas,
vou até o elevador, deixando as fotografias esparramadas
no chão, um rastro de olhares que percebem um louco e
faço a secretária da diretoria que caminha na
minha direção se afastar com medo do meu rosto
suado e meus olhos arregalados. Dirijo até em casa tirando
tinta dos carros ao lado. Farol vermelho. Excesso de velocidade.
Dia de rodízio. Antes de entrar em meu condomínio
e subir ao apartamento já perdi a habilitação
por umas dez vidas. Atravesso a sala como bala. Reviro minha
gaveta no guarda-roupas. Dúzias de envelopes do Lar Santo
Antônio sem ao menos serem abertos. Não precisava
conferir os boletos, uma vez que a conta estava em débito
automático. Se fosse alguma urgência os imbecis
do asilo teriam ligado. Teriam, eu sei. Rasgo o envelope mais
recente. Papel timbrado. Digito os números e a ligação
toca no litoral. Uma voz de senhora rouca do outro lado. Explico
quem sou, pergunto pelo meu pai. Musiquinha irritante enquanto
transferem para o serviço social. Outra senhora. Pergunta
o nome do interno, meu nome. Ela pigarreia daquele jeito que
a gente sabe que lá vem chumbo quente. Um hiato desconfortável.
Minha cabeça a mil, zunindo, pensando um monte de merda.
Meu pai não podia estar naquela foto. Meu pai estava
no asilo. Meu pai… ela finalmente fala.
— Lamento, senhor Sérgio. Mandamos oito cartas
de lá pra cá. O senhor não deu nenhum retorno.
Seu pai foi enterrado dia 16 de setembro do ano passado.
— Entendo.
— Temos coisas dele aqui. Ele deixou pertences para o
senhor. Antes de ficar em coma tinha dito que era para lhe entregar
quando viesse visitá-lo em seu aniversário.
Desligo o telefone. Caio na cama e, como não fazia há
dez anos pelo menos, explodi num pranto misturado a berreiro
e condenação. Meu pai estava morto. Duas semanas
antes do aniversário de Fernanda. Ele queria tanto me
ver que tinha aparecido na festinha. Ele, de alguma forma irreal
e inacreditável, estivera ali, no salão do condomínio.
Estivera ali.
Então um arrepio sobe pela minha espinha. Interrompo
o choro rasgado quando Deise entra no quarto. Meus olhos dançam
pelo vazio do quarto impessoal e padronizado, como tantos outros.
Passam pelo lençol amarrotado, pelos criados-mudos e
varrem as paredes. Meu pai… estaria ali? Naquele instante?
Uma alma penada, assombrando um filho monstro.
— Sérgio do céu? Você foi despedido?
Não respondo. Ainda procuro o espectro nos cantos e nas
sombras. Um homem calado e de vida dura. Esquecido num asilo
cheirando a mofo, trancafiado atrás das barras de solidão
e preso aos grilhões pesados da espera.
Deise me abraça com medo e preocupada.
— Quanto você vai receber de indenização?
Já falaram?
Dou um empurrão em minha esposa. Ela cai sentada na cama.
Ainda preocupada. Calculando. Ela também está
presa a grilhões. Grilhões com outro peso…
com correntes muito, mas muito mais curtas.
— Meu pai morreu, Deise.
— Ah… pena.
A mulher se levanta e recompõe a roupa.
— Quando foi?
— Setembro. Ano passado.
— Que coisa.
Ficamos calados. Constrangidos. Tânatos é um deus
forte.
— Você nunca me deixa visitar meu pai.
Pela primeira vez na vida de casado ela não retruca.
Sei exatamente a ladainha que viria. Pela primeira vez na vida
ela respeita minha dor. Surpresas demais para um dia só.
Estendo a fotografia para Deise. Religiosa, ela se benze.
— Sérgio! Você não acha…
— Cadê a câmera?
— Joguei fora. No Natal você comprou uma digital
para nós.
Até chegar ao asilo dispenso dois amigos pelo celular.
Não queria falar com ninguém. Tinha vergonha de
explicar qualquer coisa. Os pensamentos incessantes não
dão descanso aos miolos conspurcados por imagens do passado.
Por conta dessas imagens, mesmo antes de chegar ao Santo Antônio,
já tinha a resposta para a pergunta que me fustigava.
Por que não tinham ligado nenhuma vez? O apartamento
era novo. Tinha mudado para lá pouco menos de dois anos.
Liguei só uma vez para o asilo. Não para o meu
pai, para o financeiro. Alterei meu endereço de correspondência,
mas não tinha o novo telefone ainda. Troquei de celular
e nem lembrei de meu pai. Perdemos o contato. Lá me entregaram
um embrulho que o velho Cesário tinha deixado para mim.
Os amigos dele tinham feito uma vaquinha para que ele não
fosse enterrado como indigente. Sem família, sem ninguém
para acompanhar o cortejo. Sozinho na terra fria do cemitério.
Parei o carro na frente do campo santo, relembrando e remoendo
as dúzias de vezes que entre um cafezinho e outro no
trabalho eu me prometia ir visitar meu pai. Depois eu vou. Depois
eu vou. Sempre e sempre deixando o amor de agora para a frieza
do depois. Caminhei até a quadra indicada. Um túmulo
simples, sem foto, só o nome. Cesário Balbino
da Costa. Baiano, morto de tristeza aos setenta anos. Caí
de joelhos diante da cruz e tirei o embrulho da sacola. Mais
choro quando abri o pacote. Um tabuleiro dobrável de
madeira. Jogo de damas. Colei a testa ao chão, enchendo
a pele de pedriscos e arranhões por culpa dos soluços.
Minha mãe tinha morrido muito cedo e, então, quando
eu tinha onze anos caí doente, coisa séria, hepatite
da brava. Seu Cesário, que era homem rústico e
pouco dado a rompantes emocionais, deixou o trabalho por trinta
dias e trinta dias passou ao pé da cama do hospital,
ficando comigo o tempo todo. No segundo dia apareceu com aquele
tabuleiro de damas e me ensinou a jogar. A lembrança
só serviu para varar ainda mais meu coração
de gelo. Quando abri o tabuleiro um pedaço de papel dobrado
caiu junto com as pedras de damas. Apanhei o papelzinho e desdobrei,
lendo a mensagem grafada com caligrafia tremida e inconfundível
do velho Cesário. Sorri sem graça.
— Está tudo bem… — dizia meu pai através
do escrito. — Está tudo bem… — repetia
minha voz para consolar ambos.
Armei as pedras sobre o tabuleiro. Um vento gelado arrastou
as folhas secas em minha direção. Assoprei a sujeira
de cima dos quadrados. Movi a branca para a frente, avançando
uma casa como era a regra.
— Sua vez, pai — murmurei.